sexta-feira, 26 de março de 2010

“Fazer ver e fazer crer”

Depois de alguns dias de abandono retomo as histórias no meu querido blog. Justifico a ausência, culpando a semana corrida. Mas, vamos ao que interessa.


Esse resto de semana me fez repensar sobre a importância do trabalho do jornalista. Assisti algumas palestras de colegas de profissão e refleti bastante sobre a forma que muitas vezes nos comportamentos diante das notícias. Escutei uma frase durante uma apresentação da jornalista Silvia Falcão na abertura do I Encontro Médico – Mídia da Região Nordeste que dizia: “O jornalista tem a obrigação de fazer ver e fazer crer”. Ela foi crucial para minha reflexão de hoje.


As pessoas acreditam muito no que nos dizemos. Somos formadores de opiniões, alguns vão ainda mais além e nos chamam do Quarto Poder. A informação tem força. Quantas vezes a imprensa diz que é e todos acreditam. Será que lembramos dessa responsabilidade no nosso dia a dia? Esta semana estamos vivenciando um caso concreto disso, o julgamento dos Nardoni. Eles podem até ser inocentes, mas entraram no Tribunal do Júri condenados.


Quando se trata de matérias sobre casos emblemáticos, busco analisá-los com maior cuidado. Leio, releio, escrevo exatamente o que o entrevistado disse. Tenho muito medo de fazer com que o meu texto se torne “palavra verdadeira”, sem ser. Tento fazer com que os meus leitores tenham uma informação precisa e principalmente real, exatamente como aquilo aconteceu. Busco nos detalhes e observação a garantia de veracidade. Só que tenho que confessar que muitas vezes essa rotina incessante e as pautas muitooooo chatas, me fazem esquecer da responsabilidade e do dever do jornalista em fazer com que o fato vire notícia. Perco a empolgação.


Muitas vezes, recebemos uma pauta e nem ligamos muito para a parte social da coisa. É como se tivéssemos um piloto automático que damos partida e seguimos adiante. As vezes me puxo para a realidade e tento fazer com que aquele meu trabalho faça a diferença na vida de alguém. Enquanto, a notícia na maioria das vezes é para os jornalistas apenas uma parte do cumprimento do trabalho, para muitas pessoas, ela será algo crucial. Os entrevistados vão comemorar a oportunidade, os leitores devorar a informação.


São tantos fatos e coisas novas que recebemos durante uma semana de trabalho, que as vezes cansamos. Para aqueles que não trabalham em redação ter uma idéia, num dia cumprimos três pautas, isso quando não aparece a quarta perto de irmos embora. Ficamos tão alvoroçados para cumprir logo a nossa meta diária e tão acostumados com aquela correria, que nos esquecemos do nosso papel principal: - manter uma sociedade informada com os verdadeiros reais.


Essa coisa meio mecânica acontece geralmente quando pegamos aquelas pautas repetitivas. Sem emoção. Pautas de gabinete, que servem apenas para completar o fechamento da edição do jornal. Só que essas pautas, que nem sempre são tão legais, também podem esconder uma grande matéria, basta apenas olhar diferente para ela. Sempre vai ter alguém que se interessa por aquilo, nem que seja apenas o entrevistado.

Um comentário:

  1. Cor-de-Rosa, durante todo o período em que trabalhamos juntas - eu, editando suas matérias - sempre achei você muito cuidadosa e muito criteriosa com seu trabalho. Lembro de ter ouvido muuuuiiiitas reclamações sobre pautas - inclusive, de algumas pautas feitas por mim!!!
    Quando mas reclamações eram justas, resolvíamos conversando. Quando não eram, também resolvíamos da mesma forma.
    Quantas vezes não conseguimos, olhando por um ângulo diferente, dando um enfoque diverso do originalmente pedido, transformar uma pauta fraca e sem sentido numa boa matéria? Você sabe fazer isso e deve continuar a fazê-lo, sempre.
    E não pode perder de vista que, entre todas as coisas chatas que tem para se fazer em um jornal a pior delas é, justmente, criar pautas. E pauteiro não faz milagre. Pauteiro sofre, muito! Pergunte à Vera...
    É muito importante fazer essa reflexão que você fez aqui hoje. Mas, fazer sempre.
    E, Láyra, por mais chata, viciada e sem emoção que uma pauta pareça ser, com as qualidades que você tem como repórter, essa pauta só não se transformará numa boa e interessante matéria, se você não quiser. De jeito nenhum. Bjoks,

    S.

    ResponderExcluir