segunda-feira, 19 de abril de 2010

Dia do índio... Eles tem mais o que reclamar do que comemorar!

Foto Internet

Hoje é Dia do Índio. E como não podia ser diferente me incumbiram para uma matéria especial sobre esse povo que luta para manter suas crenças e sua cultura. Essa não é a primeira vez que conto a história de índios, já falei sobre educação, festejos religiosos e saúde. Só que dessa vez a minha missão foi outra e ainda foi dividida. Viajei o Estado de canto a canto em companhia de minha pupila, pelo menos é assim que venho chamando a futura jornalista Fabyane Almeida, estagiária de O JORNAL.


Ela foi quem sugeriu a pauta e como seria sua primeira matéria de domingo, me escalaram para ajudá-la no que fosse necessário. A idéia éramos localizar e contar a história das aldeias indígenas alagoanas que terão suas terras invadidas e tomadas para que a duplicação da rodovia Federal BR-101, prevista para começar agora em maio, aconteça. É a perda, pelo progresso –ou pelo menos é assim que o Governo Federal chama a obra.


Em dois dias viajamos de um lado a outro de Alagoas. Primeiro fomos para São Sebastião e Porto Real do Colégio, cidades que ficam próximas ao Rio São Francisco. Em seguida para Joaquim Gomes, já do outro lado do Estado na Zona da Mata. Dessa vez a nossa aventura foi para conhecermos como vivem e o que esperam da duplicação os Wassu-Cocal, Kariri-Xocó e Karapotós.


Eles já não vivem mais no meio do mato, assistem TV, tem acesso a Internet, antena parabólica, sofrem com problemas dos “brancos” como alcoolismo e drogas, mas mesmo assim, ainda tentam de todas as formas manter a cultura de seus ancestrais viva. E o que é mais interessante, há vários séculos continuam enfrentando o mesmo problema: a falta de terra.


Com a duplicação, casas, árvores centenárias, açudes, escolas e pontos comerciais precisaram ser removidos para a construção de mais duas faixas para o fluxo de veículo. O mais interessante é que território é protegido pelo Governo Federal e ele mesmo é quem vai mexer nesse local.


É na margem da rodovia que muitas famílias tiram o sustento vendendo frutas, verduras e artesanato. Foi ainda ao longo da BR-101, que a vida das aldeias foi desenvolvida com a construção de casas e escolas. Essa não é a primeira vez que eles são obrigados a deixar suas áreas, há mais de cinquenta anos quando a via foi construída eles tiveram que deixar seus lares e não receberam a indenização desejada.


Cada tribo sofre com uma problemática de acordo com sua região. Os Wassu Cocal que ficam localizados no município de Joaquim Gomes serão os mais atingidos com a duplicação da rodovia. No projeto do DNIT serão removidas 250 casas, mais de seis quilômetros de árvores frutíferas, três escolas construídas recentemente para repassar os ensinamentos indígenas, vários estabelecimentos comerciais, além da mudança do Rio Capim que serve para a pesca da aldeia.


Foi muito comovente ouvir a história dos moradores dessa tribo. Nessa aldeia o desespero das pessoas era visível apenas ao tocar no “nome” duplicação. Os olhos da maioria dos índios que terão que deixar suas casas chegava a ficar perdido no horizonte ao pensar no futuro. Em um dos relatos que ouvimos uma índia lembrou do umbigo da filha mais velha que está enterrado no quintal de casa o outro, da jaqueira que sustenta sua família o ano inteiro e que terá que ser derrubada. O clima é de expectativa e eles sabem que se trata de uma batalha perdida, que ao sinal do DNIT é só desocupar suas casas e esperar a mudança.


Mas não pensem que a luta vai ser entregue de bandeja. Eles estão com uma série de reivindicações e garantem que a duplicação só irá acontecer após elas serem atendidas. Os índios querem uma indenização justa, a construção de ciclovias e locais para travessia – já que eles temem atropelamentos -, a construção de casas e ainda, a liberação de territórios que estão na dependência da FUNAI.


A expectativa é que as obras da rodovia comecem em maio, mas devem parar a sete quilômetros antes das aldeias. Eles só poderão fazer a construção na região depois que todos os questionamentos estiverem resolvidos. Essa foi uma vitória dos índios.


Mas as lutas continuam. Acredito que hoje, Dia do Índio eles não tenham muito que comemorar, mas muito mais para reivindicar. Durante a nossa matéria conversamos sobre tudo e não era surpresa saber que eles sofrem com a falta de médicos, de medicamentos, escolas preparadas para o ensino indígena e outros milhões de problemas.


Da primeira matéria que fiz com eles há uns três anos até hoje, os problemas continuam sendo os mesmos. Mudam governantes e os índios continuam sendo deixados de lado. É uma pena que esse povo sempre precise está lutando para serem lembrados.


OBS: Ah, em relação a minha pupila com sua primeira matéria, acredito que ela tenha ficado satisfeita, pelo menos a emoção estava nos olhos dela hoje pela manhã ao comentarmos a publicação de ontem. Para um estudante ou jornalista é sempre uma alegria ver seu nome nas páginas é o reconhecimento do seu trabalho. Muitooo bom!


Um comentário:

  1. Foi muito bom ter feito minha primeira matéria com você! Mesmo com todo nervosismo, aprendi bastante nessas duas viagens, de verdade.
    Obrigada por toda ajuda!

    Sua pupila

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