domingo, 6 de junho de 2010

A história de Francisca...

Dona Francisca mostrando seu cartão com exames.

A vida de jornalista nos proporciona conhecer histórias que talvez nunca soubéssemos que existissem. Ficamos por dentro de fatos que não fazem parte da nossa realidade de vida, de quem vive na capital, tem salário todo mês, vai ao shopping Center e ao supermercado para fazer compras. Sem falar no atendimento médico, que mesmo pago está a nossa disposição quando necessário.


A nossa vida hoje é totalmente planejada. As mulheres já não obedecem as ordens do marido como Lei, decidem o que querem e como vão fazer. Estou falando isso, para poder contar a história da vida de dona Francisca de Farias. Ela é uma mulher de 42 anos e que está simplesmente no quinto mês de gestação, grávida do seu décimo filho.


A família é grande e não para de crescer. Ela vive num sítio em São José da Tapera, pense num lugar longe, demoramos cerca de três horas para chegar na cidade e mais meia hora para chegar no lugar onde ela vive. Estrada de barro puro, buracos enormes, casa de taipa e uma agricultura de subsistência é mais ou menos a realidade desse lugar.


Estava no interior para fazer uma reportagem sobre o acompanhamento pré-natal, que de passagem, caminha bem no nosso interior, graças aos médicos do Programa Saúde da Família. Queria uma personagem que tivesse uma gestação de risco e encontrei aquela mulher de pele escura, mãos calejadas, olhos bonitos e que não estava com coragem nenhum de ter mais um filho.

Durante a conversa ela confessou o medo que tinha de mais uma gravidez e o quanto estava incomodada com aquilo. Com 42 anos, muitas mulheres já se preparam para serem avós, enquanto ela tem que se preocupar em alimentar mais uma boca e enfrentar, os problemas e cuidados que existem para uma gestação arriscada.


Enquanto ela me falava de sua vida ia pensando no por que dela não se precaver, já que existem mil formas de evitar uma gravidez. Mesmo que ela não quisesse tomar o contraceptivo ou não pudesse, que o marido não quisesse usar camisinha, então por que não se operar? Nove filhos já são demais para uma família que vive no limite.


Não me aguentei e perguntei. A resposta foi a mais surpreendente, pelo menos para mim. Tímida, cheia de receio com o que iria dizer, falou “Pensei em me operar, mas meu marido nunca deixou. Disse que Frei Damião falava que era pecado e não ia brigar com ele. Cheguei a tomar remédio escondida, mas minha pressão subiu e tive que parar”.


Ela se lamentava com a gravidez, principalmente pelo medo de ter mais um filho numa situação de risco, mas o marido era só sorriso. Para ele, mais um filho aos 43 anos era sinônimo de virilidade. Quem disse que ele estava preocupado como iria fazer para alimentar mais um boca, quando perguntei disparou logo, “Onde se alimenta nove, alimenta dez. Todos estudam e trabalham na roça comigo. Comida não vai faltar”.


Com respostas como esta, minha cabeça saiu de lá ainda mais fervilhando. Aquelas pessoas estavam ali para enfrentar a situação e não estavam preocupadas em ter um, dois, ou dez filhos. Para eles tudo se daria um jeito e no final daria certo. Fiquei realmente chocada com a mistura de fé e machismo, mas entendi que as coisas ali funcionam daquela forma.

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