segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O pavor do IML...

Repórter mortuária. É mais ou menos assim que me sinto as segundas-feira (dia tradicional do Instituto Médico Legal Estácio de Lima). Só de pensar nisso me dá nos nervos, um verdadeiro pânico. Gosto muito de ser repórter de polícia, acompanhar operações policiais, prisões, assaltos, confusão, rebeliões, protestos... mas, IML não, não, não...

Me sinto tão fúnebre quando tenho que ir aquele lugar. É triste. Cheio de lágrimas e lamurias de quem perdeu alguém. É um sofrimento tão grande, que acaba me deprimindo. E sinceramente, com essa quantidade de morte, que só cresce e cresce, tem se tornando constante as minhas idas ao Estácio de Lima.

A cada segunda-feira me deparo com histórias mais tristes, mortes mais cruéis... Famílias dilaceradas pela dor. Números de mortes que só crescem e fazem mais vítimas. Sem dúvida é assustador. Meu pavor por aquele lugar é tão grande, que ele habita meus maiores medos. Só de pensar de morrer e ter que ir para aquele lugar, é de dar nos nervos.

Hoje, acho que depois de muito protestar me livrei de ter que passar por lá. Senti um alivio tão grande, uma sensação de paz interior... Isso não diminui o número de mortes, mas melhorou meus transtornos pessoais. É aquele tipo de coisa, sinto uma sensação tão forte, tão intensa de coisa ruim, que prefiro me manter longe.

Como repórter, pelo menos me acho um pouco comprometida com a notícia, sei que mais cedo ou mais tarde vou ter que voltar para lá. Infelizmente, as más notícias não acabam e do jeito que a crescente violência anda, minhas idas e vindas do IML devem continuar por um bom tempo.

2 comentários:

  1. Esse texto me lembrou uma coisa: uma vez eu estava conversando com meu chefe e ele dizendo que não gostava de enterro. Ia para o velório, mas na hora do caixão ser levado para o túmulo, ele ia embora. E justificou: "Fico angustiado de ver o caixão com a pessoa dentro ser colocado num buraco, e depois jogarem terra em cima".

    Então, eu fiz o seguinte comentário: "já eu, prefiro o enterro propriamente dito ao velório. Acho velório chato e, muitas vezes, penso que as pessoas não respeitam a memória do falecido. Contam piadas e riem, falam mal do morto e dwe outras pessoas que estão por perto, estão sempre mastigando algum lanchinho, sem falar naquela coisa de chegar perto do caixão e dizer que 'fulano(a) parece que está dormindo'"...

    Só depois me toquei para o quão estranha estava a conversa: "Ah, eu gosto de velório"; "Oxe, eu não. Eu prefiro o enterro". kkkkkk Lá isso é papo para se ter com ninguém?!

    Imagino que essas idas ao IML sejam mesmo um martírio. Mas pior seria se tivesse exumação todo dia, e você tivesse que cobrir... Ninquém merece, Santa Rosa.

    Beijo,

    S.

    ResponderExcluir
  2. KKKKKKKKKK. É isso mesmo, companheira. Pauta pro IML dá logo um nó na garganta. É péssimo. Inda temos de procurar familiares pra entrevistar e fotografar !... mas o que mais me agonia é o cheiro, companheira ! Ergh !!!!!... Só lembro do dia, naquela fase em que a PF tava prendendo uns grandões, alguém falou na possibilidade que um prefeito que esperávamos ter entrado pela porta dos fundos... Fui conferir. E o que eu encontrei lá ?!... Hummm... Os 'PODRÕES' ! Tinham três corpos mortos a dias, em completa putrefação, uns pareciam inteiros e um, que estava numa bancada bem ao meio, todo remendado... Pude ver até os itapurus saindo da pele daqueles indigentes... Fiz as fotos dos podrões e voltei correndo, pois não havia qualquer indício da passagem de tais envolvidos nas falcatruas nem polícia por ali. Desde esse dia passei a ver o IML com outros olhos. Desculpa se essa estória é muito 'cabeluda', mas em se falando em IML, bem sabemos do que se trata.

    Bju.

    ResponderExcluir